domingo, 16 de janeiro de 2022
FRANÇOISE FORTON, O ÍCONE DA NOSTÁLGICA NOVELA "ESTÚPIDO CUPIDO", DEIXA NOSSO PLANO
Após ter iniciado carreira na fase mirim e ser surpreendida por um inesperado sucesso, em meados da década de 1970, a atriz necessitou de uma pausa brusca e retomou seus trabalhos quase dez anos depois, numa cena artística completamente modificada. Com o avançar da idade e poucos filmes no currículo, Françoise marcou presença no teatro e chegou a protagonizar nos palcos uma adaptação da telenovela "Estupido Cupido", da Globo, completando, assim 50 anos de carreira. Professora de teatro, ministrou diversas oficinas, principalmente em 2019, em Bauru, interior de São Paulo. Seu último trabalho foi "Amor Sem Igual", para a Rede Record.
Sempre lamentei por não ter idade ou vivido como adulto nos primórdios do teatro, televisão e cinema, na segunda metade do século XX. Quanta coisa não testemunhei e perdi de documentar. Lembro que... Quando atingi a idade adulta, as coisas já não eram tão interessantes quanto os primórdios. Considerando todos os registros que vasculhei, lembro de ter me impressionado com a atuação da atriz Françoise Fourton, numa reprise da novela "Estupido Cupido" (1976), em alguma brecha da década de 1980. Não apenas fiquei impressionado pela atuação da moça como também fiquei encantado por sua beleza e espontaneidade. Não por acaso sua personagem na novela, Tetê, era candidatada a Miss Brasil, em 1961. Foi único sucesso de Mário Prata. As novelas seguintes foram fracassos (não pela qualidade, talvez por divergências criativas entre os produtores). Eu documentei uma entrevista de Mário Prata, a pedido do jornalista gaúcho, Ruy Carlos Ostermann, em 2012, em Porto Alegre, no projeto "Encontros com o Professor". Por tabela, no papel de documentarista, acabei participando fazendo perguntas de alta relevância. Naquele momento, em tempo muito curto, lamentei por não ter perguntado sobre a escolha da atriz Françoise Fourton. Sim, porque segundo matérias escritas em vários sites sobre a novela, tal sucesso foi mérito de equipe e não apenas de autor. Um conjunto de decisões tornou "Estupido Cupido", uma novela inesquecível. Da trilha sonora nacional (inicialmente, depois teve a edição internacional), a escolha de canções de personagens (Guto Graça Mello, que incluiu Celly Campello, Sérgio Murilo e outros nomes do início do rock brasileiro), nível de produção (até onde estou informado, o mérito do conjunto da obra é creditado ao todo poderoso Boni), direção (Régis Cardoso) e elenco (todos brilhantes em sua atuações genuínas, com muita gente talentosa vinda do teatro clássico moderno brasileiro).Recordo que minha avó paterna era fã de carteirinha da novela e não perdia nenhum capítulo porque as demais novelas da Globo ela só assistia fragmentos, era fanática por jogo de bicho e ganhava quase sempre. Justamente, de todo o elenco, Françoise Forton era a atriz que mais lhe chamava atenção. Eu, anos depois, resgatei todo o material iconográfico de Françoise Forton num depósito de minha avó, reservado aos ilustres. Em tempo: a novela, enfim, era e sempre será superior a versão portuguesa (cafona) que Mário Prata concordou que fosse produzida décadas depois.
Enfim... O que mais posso dizer?... Ela era uma "diva". Em 1976, a bela Françoise estava no auge, capas de revistas, posters e fotonovelas de várias publicações. Desde o seu início marcante no cinema em "Marcelo Zona Sul" (1970), passando por novelas populares na Globo, tais como "A Última Valsa" (1969), "O Semideus", com uma dobradinha de Tarcísio Meira e Francisco Cuoco (1973), "Fogo Sobre Terra", com Juca de Oliveira (1974), "Cuca Legal", novamente com Chico Cuoco (1975) e "O Grito" (1975), a beldade prometia ser uma atriz permanente de "primeiro time". Surpreendentemente, após o estrondoso sucesso de "Estupido Cupido" (1976), Françu, como era chamada pelos amigos (vide Beth Goulart), interrompeu (ou ficou afastada, segundo informações de bastidores) por sete anos. Mesmo não vivendo os tempos de internet onde as celebridades descartáveis reinam, Françoise (verdade seja dita) jamais recuperou o sucesso alcançado em 1976. Ela teve o seu "apogeu de época", algo do tipo Doris Day, nos anos 1950 e 1960 (guardada as devidas proporções, é claro). Essa circunstância sempre se repetia no século XX e ainda hoje se repete, com variantes, não no aspecto moral e sim casual. Mesmo linda, talentosa e carismática, Françoise conseguiu regressar a televisão somente em novelas, como por exemplo, "Sabor de Mel" (1983), em outra emissora, a Band, de ibope inferior a antiga emissora. E, no cinema, em "Jardim de Alah" (1988).Neste mesmo ano, ainda conseguiria um novo trabalho na Globo, "Bebê a Bordo", onde encarnou a sensual Glória, ao lado de Nicette Bruno e Tony Ramos. Outro grande momento, no sentido de interpretação, aconteceu em "Tieta" (1989), desta vez, como a vilã da trama, esposa de Ascânio (personagem de Reginaldo Faria). Já em "Meu Bem, Meu Mal" (1990), outra novela do horário nobre, Françoise teve uma participação mais discreta, vivendo a personagem Marcela (escrita pelo mestre das tramas urbanas, Cassiano Gabus Mendes). Ela merecia mais. Lembrem-se que "Fran" foi uma das protagonistas do já mencionado sucesso de 1976.
Eu poderia ir mais além escrevendo coisas incríveis que tomei conhecimento. Evidentemente que este texto, publicado aqui, hoje, não possui um caráter biográfico e é sim um esboço compulsivo. Trata-se apenas de um registro sobre um indesejável acontecimento. Fora o que conversei com Françoise Forton em 11 de novembro de 2021, lamento a carência de material audiovisual sobre a atriz pelo país afora. E mais... Gostaria de bater o pé... É papo furado que na internet você encontra de tudo!!! Você não encontra nem um terço das entrevistas históricas de Fran e demais artistas foram preservados em acervos regionais (refiro-me, também gravações em programas de rádio e jornais, mídias muito relevantes no passado recente). Definitivamente um problema de consciência cultural que está longe de ser resolvido. Não fossem os colecionadores e raros documentaristas, "o país sem memória" não teria praticamente nada o que contar, incluindo documentos audiovisuais eliminados em incêndios criminosos. Infelizmente, sinto-me na obrigação de informar que, no Brasil, existem atores que não curtem dar entrevistas, o que só dificulta o trabalho de preservação de memória cultural idealizado, principalmente, por documentaristas independentes. Alguns talvez porque estejam cansados de jornalistas que estejam focados insistentemente na vida pessoal das celebridades. E aí os justos pagam pelos pecadores...
Pois bem... Vou deixar registrado que meu contato com Françoise Forton (indicação do querido ator Edwin Luisi) revelou-a como um exemplo de profissional e pessoa. Generosa, colaborou da forma que podia colaborar para com meu projeto sobre a história da dramaturgia no Brasil do século XX, até chegar a este desfecho de 16 de janeiro do ano corrente. Confesso que fui pego de surpresa (o que prova que com toda a minha experiência, mesmo com as 2 mil personalidades entrevistadas, de diversas áreas), ainda necessito de medidas preventivas no universo de registro audiovisual.Lembro que o produtor de cinema Claudio Khans ("Marvada Carne", 1985), contou em entrevista gravada no ano passado para o meu canal, prevista para ir ao ar em breve, que o documentário sobre o ator José Lewgoy fora realizado graças a imagens terceirizadas, ou seja, o realizador não gravou diretamente uma entrevista com Lewgoy. Aí, penso: "Sim, devemos estar preparados sempre para a tragedia, vivemos em um mundo cujo o relógio biológico nos torna refém de uma energia desconhecida em constante movimento. Como seria reconfortante se tivéssemos um nível de consciência avançado, assim encontraríamos a transcedência sem a constante preocupação sobre o fim da existência, neste plano ou em algum outro (para aqueles que acreditam na eternidade espiritual, claro). A verdade nunca saberemos, pois estaremos mortos, inconscientes e inanimados". E completo: "Entretanto ter esperança em algo superior a nossa compreensão é uma ideia que jamais deve ser abandonada. Torço pelos otimistas e abomino os niilistas".
Françoise deixou nosso plano, aos 64 anos (nasceu em 8 de julho de 1957, no Rio de Janeiro), justamente num péssimo momento para a classe artística brasileira. Também deixou o marido, o produtor cultural Eduardo Barata, e o filho Guilherme Forton Viotti. Estava internada na Clínica São Vicente, na capital carioca, onde tratava um câncer. Seus restos mortais serão cremados, porém sua imagem continuará bem viva entre nós, muito, mas muito além do universo on line. Que assim seja ...
TEXTO: Emerson Links.
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Poxa! Achava Ela linda. Lembro de Alguns Trabalhos dela. Acho que Depois Ela foi pra Record ne?
ResponderExcluirLembro dela Desfilando pela Escola de Samba Mangueira.
Em homenagem a ela...hoje estou revendo...seu primeiro filme...Marcelo Zona Sul
ResponderExcluirÓtima matéria, uma das mais belas e melhores atrizes que vi...parabéns!
ResponderExcluirApoiado por tudo de maravilhoso e verdadeiro que escreveu; amigo Emerson, de tudo ficou gravado em meu coração a seguinte frase: 'ter esperança em algo superior; é uma ideia que jamais deve ser abandonada' minha admiração por você e seu trabalho lindo! É ETERNA. Agradeço por fazer parte do meu seleto rol de amizades.
ResponderExcluirAtriz também admirada por mim. Talentosa; linda e admirável em todos os trabalhos apresentados. O que mais me chamava a atenção: AS LINDAS SARDAS 😊 QUE DEUS A TENHA 🕊💎
ResponderExcluirBeleza de crítica, Emerson! Ela foi uma ótima atriz, diretora, etc., dentro do campo teatral. Embora Miss S.Paulo,não fixou seu trabalho apenas em sua beleza! Sua "Câmera" captou a essência da atriz ! Parabéns !
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